quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Tio Nortton.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
No dia 7 de agosto de 2011 eu prometi que usaria essa foto para homenagear meu tio Nortton quando ele morresse. Aconteceu hoje. Por ironia do destino ele está segurando nas mãos o que tirou a vida dele.

Foi no final do ano passado que ele descobriu que por causa do cigarro estava com câncer nos pulmões. Nós da família vimos ele morrendo um pouquinho a cada dia. Mas foram nesses últimos dias que as coisas pioraram de vez. As crises eram mais constantes e o sofrimento de todos era maior. Eu não conseguia olhar no rosto dele porque não o reconhecia. Ele estava muito inchado e mudado.

Hoje tudo aconteceu rápido e de uma maneira estranha. Voltei da minha pedalada mais cedo porque senti que eu deveria estar em casa. Tomei meu banho e ouvi ele no quarto lutando para puxar o ar. Achei muito estranho porque ele nunca tinha feito tanto barulho como fez hoje.

Enquanto eu entrava em casa, minha mãe ligava para a ambulância.  Levou de 30 a 40 minutos para a ambulância chegar na minha casa. Nesse meio tempo eu e minha irmã estávamos com meu tio e minha mãe vendo tudo acontecer. Eu cheguei a ligar 3 vezes para a ambulância adiantar mas eles falavam que estavam chegando. Meu tio parou! Foi nesse momento que eu soube que o meu tio estava morto. Ele parou de respirar. Por mais que minha mãe chorasse e gritasse o nome dele, ele tinha parado.

Me mantive forte e não chorei, aliás, ainda não consegui chorar. Eu ainda estou processando na minha cabeça tudo o que aconteceu. Ao mesmo tempo que se passou poucas horas da morte dele, sinto como se tudo isso tivesse acontecido a muito tempo (anos).

Os parentes correndo pela casa gritando e chorando, a ambulância chegando tarde demais, a namorada (que o tratava com tanto amor que prefiro chamar ela de esposa.) dele chegando gritando. Parece que faz anos que os vizinhos entraram aqui para ver o corpo do meu tio estendido no chão. Mal me lembro do rosto do único cara da funerária que veio buscar o corpo.

Toda vez que eu fico muito nervoso ou passo por uma situação sem controle eu sinto uma vontade enorme de rir. Mas como não queria magoar ninguém, me contive. Era meu tio ali estendido no chão. Ele tinha acabado de morrer segurando a mão da minha mãe. Como não consegui rir e nem chorar, fiquei sem expressão. Estou triste e com muita raiva por meu tio ter acabado com a vida dele. Porque eu não posso culpar o câncer e nem o cigarro. Eu só posso culpar o meu tio. Ao mesmo tempo que estou com muita raiva dele estou com saudades. É muito difícil explicar como eu estou me sentindo porque nem eu mesmo sei. Eu me sinto sobrevoando toda a situação. 

Talvez meu avô esteja se sentindo da mesma forma. Até agora ele não chorou, gritou e nem fez nada. Ele está apenas está "sobrevoando" como eu. Saiu dirigindo para resolver a papelada e tudo o que faltava. Olhando para ele eu fico com raiva por achar ele tão insensível. Mas não posso julgá-lo porque estou agindo da mesma forma. Talvez eu chore andando de bicicleta amanhã ou antes de dormir, mas por enquanto eu só sinto pena dos meus familiares e saudades/raiva do meu tio. Estou frio e duro como uma pedra. Estou com muita raiva de mim por não ter chorado e com muita raiva do meu tio por ter morrido. 

De toda forma, desejo de verdade que ele tenha aceitado a Deus e que ele esteja no céu.
Beijo, tio Nortton.

(Muito interessante essa entrevista que meu tio deu em 2011 falando do trabalho dele • VIDEO )

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